Eu tinha uns catorze ou quinze anos, acabava de passar para o primeiro ano do segundo grau. Ele era um pouco mais velho que eu, havia reprovado em Física e gostava de música. Na verdade, ele entendia muito mais de música de verdade – e de bandas, de mixagens e de sons – do que qualquer pessoa que eu conhecia. Então eu passava metade das aulas com suas baquetas imaginárias soando na mesa atrás da minha.

Ele era repetente e ninguém conversava com ele. Logo, eu falava. E assim se passaram meses com ele me emprestando seu supernovo walkmen digital Sony sempre recheado de coisas que eu, até então fã de Guns’N’Roses e de discos do The Police herdados do meu pai, jamais tinha ouvido. E eu me apaixonando.

Queria que a licença poética me permitisse dizer que foi Blue Monday a primeira música do New Order que ouvi com ele. But fate is an ironic bitch. Uma tarde, cansada de não enxergar direito supostos sinais e confusa como só uma adolescente consegue ser, pedi para ele ficar um pouco depois da aula e roubei-lhe um beijo no meio do pátio. Sem saber que ele tinha namorada. No walkman tocava Bizarre Love Triangle.

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